Friday, February 25, 2011

As Lentes do Tradutor e do Exegeta

Foi publicado na Revista Fides Reformata, de dezembro de 2007, XII, No. 2, do Instituto Presbiteriano Mackenzie, Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, CPAJ, o artigo do moderador da comunidadeHebraico, Aramaico e Grego do Orkut (http://www.orkut.com/Main#Community?cmm=22423035), Prof. Fabiano Antonio Ferreira, intitulado: "AS LENTES DO TRADUTOR E DO EXEGETA: UM ENSAIO EM METODOLOGIA EXEGÉTICA APLICADA AO ANTIGO TESTAMENTO COM ESTUDO DE CASO EM JEREMIAS 1.11, 12".

Foi uma grande conquista e está disponível para os leitores em PDF no próprio site do CPAJ, no menu da Revista Fides Reformata, uma das mais respeitadas publicações teológicas do Brasil. Devido ao problema com as fontes, eu consegui embuti-las como imagens e refiz o PDF que agora está sendo disponibilizado.

Agradeço ao meu professor e amigo, Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, pelo convite para escrever esse artigo acadêmico.




RESUMO:



As traduções da Bíblia, apesar de todo o esforço empreendido pelos tradutores, nem sempre conseguem espelhar todos os traços intralinguísticos dos textos em suas línguas originais. Muitas vezes as peculiaridades dos planos fonético, morfológico, sintático, semântico ou estilístico ficam latentes na língua original, sem sequer serem tocados pelos tradutores e exibidos na tradução. Quando bem feita, a tradução desencadeia operações idênticas às realizadas na produção do texto original, sendo assim um processo de retextualização ou nova produção do mesmo texto na língua receptora da tradução. Contudo, nem sempre o tradutor consegue um nível perfeito de intertextualidade entre seu texto traduzido e o texto original, por conta das peculiaridades da língua original e da língua receptora da tradução. Portanto, é exatamente neste ponto que o conhecimento das línguas originais se torna importante para a tarefa da interpretação, constituindo um meio mais rápido para o resgate da intenção do autor original. Neste artigo, pretendemos demonstrar através de nosso estudo de caso, o texto de Jr 1.11-12, que o conhecimento da língua original do texto pode ser o meio mais rápido para a apreensão do sentido tecionado pelo autor sagrado. Veremos também que, na grande maioria dos casos em que a chamada do texto é intralinguística, prescindir do conhecimento da língua original pode dificultar a exegese e nos deixar aquém do sentido do texto e em busca de interpretações menos óbvias.

PALAVRAS-CHAVE
Tradução; Tradutor; Retextualização; Interpretação; Hermenêutica; Exegese; Línguas originais; Paronomásia; Intraduzibilidade.



ABSTRACT:


Despite all the effort made by translators, the translations of the Bible not always are able to reflect all of the intralinguistic features of the texts in their original languages. Many times the peculiarities of the phonetic, morphologic, syntactic, semantic, or stylistic realms stay latent in the original language, without being touched by the translators and reflected in the translation. When appropriately made, the translation unchains operations identical to those accomplished in the production of the original text, thus being correctly called a retextualization process or new production of the same text in the receiving language of the translation. However, not always the translator achieves a perfect level of intertextuality between the translated and the original text. This fact is due to the peculiarities of the original language and of the receiving language of the translation. Therefore, it is exactly at this point that the knowledge of the original languages is important for the task of interpretation, representing a better way for rescuing the intention of the original author. In this article, the author intends to demonstrate through a case study of Jeremiah 1.11-12 that the knowledge of the original language of the text can be the fastest way for the apprehension of the sense intended by the sacred author. He also wants to demonstrate that, in the great majority of the cases in which the calling of the text is intralinguistic, the lack of knowledge of the original language can hinder the exegesis and leave us far from the sense of the text, searching less obvious interpretations.

KEYWORDS
Translation; Translator; Retextualization; Interpretation; Hermeneutics; Exegesis; Original languages; Paronomasia; Untranslatability.

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Faça correndo o download gratuito e leia no seu Adobe Reader. Parece que o tema e as fontes usadas nos textos hebraicos e aramaicos deram uma "cãibra mental" até no leitor de PDF do Scribd.

Aproveite enquanto é de graça e leia um dos capítulos de minha tese de doutorado que tinha tinha sido publicado em forma de artigo na mais conceituada revista teológica do Brasil, a Fides Reformata. Só tem artigo publicado lá quem realmente tem algo relevante a dizer na área de estudos bíblicos e sabe como dizer.
Aproveite!

Prof. Fabiano Ferreira

Thursday, February 24, 2011

Pericórese e Axioma de Rahner: Uma Introdução

Esta postagem visa a apenas introduzir o leitor a parte do que foi tema de minha dissertação de mestrado intitulada "A Análise de uma Impregnação Mútua entre a Teologia e a Matemática: Uma Revisitação da Doutrina da Santíssima Trindade à Luz do Conceito de Infinito de Georg Cantor". De fato, aqui está apenas um trechinho sintético para informar ao leitor de que falei extensivamente em minha dissertação, que está sendo preparada para publicação no Scribd.


Enquanto isto, dê uma breve olhada no assunto que, segundo eu descobri, jamais foi tratado por esta perspectiva em toda a História da Igreja Cristã, até porque os resultados de Georg Cantor datam do século 19 e os de Karl Rahner, do século passado (20).


Vale a pena conferir o assunto, apesar de sua declarada complexidade. Todavia, como a doutrina da Trindade é a espinha dorsal de toda a Bíblia, tornando-se a abordagem metodológica trinitária o arcabouço a partir do qual se deve construir um sistema unificado de teologia bíblica do AT e do NT, uma espécie de Mitte, e haja visto que este tema aufere muito mais lucidez a partir de sua explicitação no NT e ao longo da história da doutrina cristã, justifica-se minha abordagem. A elaboração de minha nova matriz disciplinar, na mesma linha do que acontece com o desenvolvimento científico, constrói uma nova analogia para reavaliarmos esse tema tão antigo e tão complexo, mas que será visto por uma nova perspectiva que acredito veio para ficar nos estudos bíblicos e teológicos.


Prof. Fabiano Ferreira




Thursday, January 27, 2011

QUESTÃO SOBRE João 19.18

COMUNIDADE HEBRAICO, ARAMAICO E GREGO


Kyko Pergunta:

QUESTÃO SOBRE João 19.18

“Ali o crucificaram, e com ele dois outros, um de cada lado de Jesus.”


A expressão
ἐντεῦθεν καὶ ἐντεῦθεν pode ser traduzida conforme é apresentado acima?

a) Se sim, por quê?

b) Se não, por quê?

Em apocalipse 22.2 parece ser possível essa tradução.

KYKO Gomes

REPOSTA DO Prof. Fabiano Ferreira

A Comunidade Hebraico, Aramaico e Grego tem sido uma comunidade que tem promovido uma grande oportunidade de se ter noção de como existem questões que vão além da superfície de nossas traduções em português e as mais das vezes mergulhando fundo nos textos bíblicos em suas línguas originais. Os membros da comunidade fazem perguntas que exigem um conhecimento muito acima da média para a produção de respostas. 


Esta questão do Kyko ilustra bem isto. Pelo menos, exige-se o conhecimento de hebraico e grego para formular a resposta correta e, de quebra, um pouquinho de conhecimento de uma excelente ferramenta fornecida pela Linguística Contemporânea: A Análise de Discurso.

Mesmo se não conseguir entender tudo, acompanhe minha resposta à questão. Penso que tenha sido muito elegante. Na Comunidade HAG, não basta apenas responder a questão, mas devemos dar aquele toque acadêmico impregnado de elegância para eliminar a aridez do assunto. 

Na perspectiva de quem desconhece as línguas originais, o assunto parece algo trivial e muito árido, porém, na perspectiva de quem as conhece, são campinas verdejantes entremeadas por lindas correntes de águas cristalinas que deslindam uma profundidade jamais imaginada por quem só contempla a superfície de uma bela paisagem. Além de ser linda, a paisagem pode ocultar tesouros, e é em busca deles que temos procurado incentivar os membros da comunidade.

Preparação: Revisando Expressões Idiomáticas e Aplicando Análise de Discurso:

1) Expressões Idiomáticas

Caro Kiko, analise as seguintes considerações apresentadas a partir de uma pequena análise de Jo 19.18.

Jo 19.18
ὅπου αὐτὸν ἐσταύρωσαν, καὶ μετʼ αὐτοῦ ἄλλους δύο ἐντεῦθεν καὶ ἐντεῦθεν, μέσον δὲ τὸν Ἰησοῦν.

Este versículo, que apresenta orações subordinadas a outras cláusulas e coordenadas que são “subpontos” e “balas” dentro de uma construção complexa com mescla de subordinação e coordenação, que aparecem nos versículos anteriores, pode ser traduzido literalmente: “... onde ele foi crucificado, e com ele outros dois daqui e daqui, e no meio Jesus.” Este “daqui e daqui” deriva, provavelmente, da tradução de Êx 17.12 do hebraico para o grego na Septuaginta (LXX), em que encontramos os tradutores vertendo a expressão idiomática hebraica

מִזֶּה אֶחָד וּמִזֶּה אֶחָד

por ἐντεῦθεν εἷς καὶ ἐντεῦθεν εἷς,

que literalmente equivale a ela, sem deixar no leitor dúvida quanto ao posicionamento das pessoas envolvidas, Arão, Hur e Moisés. Apesar de serem usadas repetidamente מִזֶּה אֶחָד em hebraico, e em grego (LXX) temos também a tradução com repetição de ἐντεῦθεν εἷς, também unidos com a conjunção com valor aditivo, o tradutor não precisa ser literal e deve verter a expressão em seu sentido idiomático, a saber, de um lado e do outro.


 
וִידֵי מֹשֶׁה כְּבֵדִים וַיִּקְחוּ־אֶבֶן וַיָּשִׂימוּ תַחְתָּיו וַיֵּשֶׁב עָלֶיהָ  12
וְאַהֲרֹן וְחוּר תָּמְכוּ בְיָדָיו מִזֶּה אֶחָד וּמִזֶּה אֶחָד וַיְהִי יָדָיו אֱמוּנָה עַד־בֹּא הַשָּׁמֶשׁ׃



12
αἱ δὲ χεῖρες Μωυσῆ βαρεῖαι, καὶ λαβόντες λίθον ὑπέθηκαν ὑπʼ αὐτόν, καὶ ἐκάθητο ἐπʼ αὐτοῦ,
καὶ Ααρων καὶ Ωρ ἐστήριζον τὰς χεῖρας αὐτοῦ, ἐντεῦθεν εἷς καὶ ἐντεῦθεν εἷς, καὶ ἐγένοντο αἱ χεῖρες Μωυσῆ ἐστηριγμέναι ἕως δυσμῶν ἡλίου. (LXX)

Êx 17.12 "Ora, as mãos de Moisés eram pesadas; por isso, tomaram uma pedra e a puseram por baixo dele, e ele nela se assentou; 

Arão e Hur sustentavam-lhe as mãos, um, de um lado, e o outro, do outro; assim lhe ficaram as mãos firmes até ao pôr-do-sol."

2) Análise de Discurso

Na perspectiva da Análise de Discurso, isto é muito importante, pois nos faz prestar atenção como os autores utilizam a língua para exprimirem o que querem dizer. A importância da textualização não diz respeito apenas ao que se diz, mas também ao modo como se diz algo. A compreensão do uso desses dispositivos é fundamental para a exegese e para a tradução. Muitas vezes o autor quer omitir certas informações ao leitor ou evitar repeti-las, caso já tenha passado para o leitor previamente. Nestes casos, encontramos expressões do tipo: “Ele falou assim e assim.” "Assim e assim" são a súmula do que foi dito por alguém, mas que para um leitor sem conhecimento prévio do que foi dito, não significa absolutamente nada. No nosso caso em apreço de Jo 19.18, o termo seguinte μέσον δὲ τὸν Ἰησοῦν (no meio - e - Ø - Jesus), não deixa margem para que não identifiquemos o sentido idiomático de fundo semítico de ἐντεῦθεν καὶ ἐντεῦθεν como de um lado e do outro. São apresentados crucificados καὶ μετʼ αὐτοῦ ἄλλους δύο (com ele outros dois) e μέσον define a posição de Jesus em relação aos dois malfeitores.

Outrossim, na perspectiva sócio-retórica, sócio-cultural e teológica
 do autor, a posição de Jesus no meio desses dois malfeitores indica que ele é o de maior importância, negativamente falando, sendo considerado o pior dos dois, de acordo com fontes judaicas citadas em Str-B H. 1:835, Strack and P. Billerbeck, Kommentar zum Neuen Testament, 4 vols. (Munich: Beck’sche, 1926–28), que diz: “Quando três pessoas estão presentes, a mais honrada ocupará o lugar do meio.” A exegese cristã histórica vincula Jo 19.18 a Isaías 53.12d: "... foi contado com os transgressores ...". 


Compare: 

João 19.18:
ἐντεῦθεν καί ἐντεῦθεν = daqui e daqui

Apocalipse 22.2
ἐντεῦθεν καί ἐκεῖθεν = daqui e dali

Já dá para você explicar o sentido idiomático da expressão "
ἐντεῦθεν καί ἐκεῖθεν" = lit."daqui e dali" em Ap 22.2?

A NVI de Êx 17.1 traduz: "Quando as mãos de Moisés já estavam cansadas, eles pegaram uma pedra e a colocaram debaixo dele, para que nela se assentasse. Arão e Hur mantiveram erguidas as mãos de Moisés, um de cada lado (מִזֶּה אֶחָד וּמִזֶּה אֶחָד), de modo que as mãos permaneceram firmes até o pôr-do-sol."

Forte abraço,
Prof. Fabiano Ferreira

Wednesday, November 17, 2010

Ilustrando o Papel das Línguas Originais da Bíblia: Hebraico

Ilustrando o Papel das Línguas Originais da Bíblia (I): Hebraico

A palavra אֱלֹהִים sempre significa Deus em todas as instâncias em que ocorre no Antigo Testamento?

Texto Estudo de Caso:
Livro dos Salmos, capítulo 82 ספר תהילים פרק פב - 
Tradução e Análise do Prof. Fabiano Ferreira
פרק פב  Capítulo 82

  מִזְמוֹר לְאָסָף 1
  Um Cântico de Asafe
    אֱלֹהִים נִצָּב בַּעֲדַת־אֵל 
Elohim assiste na congregação divina (de Deus),    
    :בְּקֶרֶב אֱלֹהִים יִשְׁפֹּט
No meio dos juízes (deuses) julgará.    
2  עַד־מָתַי תִּשְׁפְּטוּ־עָוֶל 
“Até quando vocês julgarão injustamente (ilegalmente)    
    :וּפְנֵי רְשָׁעִים תִּשְׂאוּ־סֶלָה
e favorecerão a presença dos perversos (Selah)?    
3  שִׁפְטוּ־דָל וְיָתוֹם
Julguem honestamente o necessitado e o órfão     
    :עָנִי וָרָשׁ הַצְדִּיקוּ
 procedam justamente para com o pobre e o empobrecido.   
4  פַּלְּטוּ־דַל וְאֶבְיוֹן
Resgatem o necessitado e o destituído,     
    :מִיַּד רְשָׁעִים הַצִּילוּ
libertem-nos da mão do perverso.”    
5  לֹא יָדְעוּ ׀ וְלֹא יָבִינוּ בַּחֲשֵׁכָה יִתְהַלָּכוּ
“Eles não sabem e eles não entendem, na escuridão caminham,   
    :יִמּוֹטוּ כָּל־מוֹסְדֵי אָרֶץ
entram em colapso todos os fundamentos da terra.    
6  אֲנִי אָמַרְתִּי אֱלֹהִים אַתֶּם
Eu disse: Vocês são deuses,    
    :וּבְנֵי עֶלְיוֹן כֻּלְּכֶם
e filhos do Altíssimo são todos vocês.    
7   אָכֵן כְּאָדָם תְּמוּתוּן
Mas como homens vocês morrerão     
    :וּכְאַחַד הַשָּׂרִים תִּפֹּלוּ
e como um dos príncipes, cairão.”    
8  קוּמָה אֱלֹהִים שָׁפְטָה הָאָרֶץ 
Levanta-te, ó Deus, julga a terra.    
    :כִּי־אַתָּה תִנְחַל בְּכָל־הַגּוֹיִם
Pois Tu repartirás a herança entre todas as nações.   


Versão Atualizada

1 Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.   
2 Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?   3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado. 4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.   
5 Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra.   
6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo. 7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.   
8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações. (Salmos 82.1-8 RA)

I) INTODUÇÃO

Nosso objetivo com este breve comentário do Salmo 82 é demonstrar como o conhecimento do hebraico pode permitir-nos deslindar o sentido de um texto que, em si mesmo, parece ocultar nuanças semânticas indecifráveis. Aliás, é temerária a interpretação de um texto como este apenas com base na comparação de versões, como infelizmente o faz a maior parte do povo de Deus hoje. Por não ser muito enfatizado hoje em dia, o estudo do hebraico, do aramaico e do grego koiné é relegado a um plano secundário, de modo que muitos pensam que o conhecimento profundo dessas línguas não seja relevante aos estudos bíblicos. Com pesar, dizemos que até mesmo em muitas academias protestantes ou evangélicas o estudo das línguas originais da Bíblia é desprezado, de maneira que não se percebe com clareza sua importância na vida daqueles que pretendem interpretar a Palavra de Deus. Assim , nosso propósito nesta breve exposição é demonstrar como o conhecimento da língua original pode nos levar à compreensão exata deste texto aparentemente complexo.
Começamos com a observação de que a consideração do lugar vivencial do texto (do Sitz im Leben), do contexto linguístico e histórico, lança enorme luz sobre a tarefa de interpretação. Portanto, primeiramente, nos deteremos no autor, em seu estilo e sua época, em seguida, na intencionalidade comunicativa subjacente à produção do salmo.
Neste salmo, Asafe, o poeta-profeta da velha aliança, contempla como Deus, reprovando, corrigindo e ameaçando, aparece contra os chefes da congregação de Seu povo, os quais têm pervertido em tirania o esplendor da majestade que Deus havia feito repousar sobre eles. Esta é uma característica predominante na abordagem asafeana (veja Salmos 50, 75 e 81): mergulhar na contemplação do julgamento divino e apresentar Deus falando. Discernir o papel das vozes nos Salmos às vezes se torna chave para entender a macroestrutura de um Salmo específico.  Asafe revisa as responsabilidades daqueles que são investidos por Deus como seus representantes, como agentes representativos da capacidade jurídica divina e traz-lhes à memória o fato de eles falharem no exercício de suas atividades, prejudicando os desfavorecidos e favorecendo os perversos, o que provocará com certeza o julgamento divino. A sentença será severa e implacável sobre toda a injustiça, a menos que haja arrependimento e mudança de atitude. Esta leitura de Asafe permite-nos avaliar a seriedade de vivermos perante um Deus justo em meio a um mundo tão injusto, sem transigirmos com qualquer espécie de injustiça em qualquer setor de nossa vida. Os juízes, em primeiro plano, e depois os líderes do povo de Deus de um modo geral estão focalizados neste salmo. Isto serve como vetor orientador de nossa análise e levará, por fim, a alguns apontamentos homiléticos.

II) A REUNIÃO DA ASSEMBLÉIA CELESTE 

Versículo 1 Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.  

Em primeiro lugar, convém-nos ressaltar que, sem o conhecimento do hebraico, jamais perceberíamos que textos são evocados aqui por Asafe. O estabelecimento de uma intertextualidade seria impraticável se não conhecêssemos o hebraico. Eis aqui a primeira argumentação em favor do conhecimento das línguas originais da Bíblia pelo intérprete que realmente queira exegetar a Palavra de Deus.  

    Conforme encontramos em Ex 21.6 e em 22.7, a corte de julgamento é chamada de Elohim (אֱלֹהִים-Deus), uma vez que os juízes eram investidos com a autoridade divina para julgar, eram os representantes da capacidade jurídica de Deus. Aqui estão os textos com as marcas necessárias para a identificação e ratificação do que afirmamos:

ו וְהִגִּישׁוֹ אֲדֹנָיו אֶל־הָאֱלֹהִים וְהִגִּישׁוֹ אֶל־הַדֶּלֶת אוֹ אֶל־הַמְּזוּזָה וְרָצַע
:אֲדֹנָיו אֶת־אָזְנוֹ בַּמַּרְצֵעַ וַעֲבָדוֹ לְעֹלָם
   
21.6 Então, o seu senhor o levará aos juízes (אֶל־הָאֱלֹהִים - el-haElohim) e o fará chegar à porta ou à ombreira, e o seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre. (Êxodo 21.6 RA)

ז אִם־לֹא יִמָּצֵא הַגַּנָּב וְנִקְרַב בַּעַל־הַבַּיִת אֶל־הָאֱלֹהִים אִם־לֹא שָׁלַח
:יָדוֹ בִּמְלֶאכֶת רֵעֵהוּ

22.8    Se o ladrão não for achado, então, o dono da casa será levado perante os juízes (אֶל־הָאֱלֹהִים - el-haElohim), a ver se não meteu a mão nos bens do próximo. (Êxodo 22.8 RA)

Portanto, a idéia central  do  versículo 1  é que  Deus  está  atento  às  ações dos juízes e, por extensão, dos líderes de seu povo, uma vez que eles estão investidos de autoridade divina, sendo, portanto, os representantes da capacidade jurídica de Deus que, acima deles, é o Juiz dos Juízes.


III) ADVERTÊNCIA AOS MAGISTRADOS

Versículo 2 “Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?”  

Vemos aqui uma denúncia aberta das irregularidades no julgamento: injustiça para os fracos e desprotegidos e favorecimento indevido dos perversos. Estas atitudes eram claros indícios de afastamento do padrão de justiça da Lei de Deus. O afastamento da Lei, por decisão voluntária, levava os juízes a se portarem de um modo leviano na presença de Deus, a quem eles representavam. Esta denúncia é semelhante aos oráculos dos profetas do AT, que sempre eram usados por Deus para denunciar toda espécie de injustiça e chamar o povo ao arrependimento. O alvo número um dos profetas eram os líderes (cf. Os 4.1-10; Is 10.1-4).


IV) DEVERES DOS JUÍZES

Versículos  3 e 4: Nestes versículos, Asafe relembra os deveres dos juízes: 

3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado.   
4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.”


Versículo 5 “Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra.”

Este verso tem a aparência de um solilóquio, de um monólogo. Muitos juízes são inconscientes de sua responsabilidade estupenda. Ser representante de Deus, a ponto de serem chamados de Elohim (אֱלֹהִים), deuses, é uma responsabilidade aterradora! Contudo, vale ressaltar aqui que não há nada neste salmo que favoreça uma visão panteísta.

... vacilam todos os fundamentos da terra - expressão metafórica que alude aos mandamentos que os juízes transgridem, são os preceitos divinos sobre os quais devem repousar todos os relacionamentos humanos e que (na economia em que vivia o poeta-profeta) estão   regulamentados  na  Torah (Lei de Deus). A Torah deveria ser o firme fundamento para o justo julgamento dos juízes. Convém lembrar neste ponto o sábio conselho de Jetro, o sogro de Moisés:

Ex 18.21:  Procura dentre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; põe-nos sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez; (Êxodo 18.21 RA)

A qualificação moral e espiritual deveria e deve ser o primeiro requisito para quem exerce função de liderança do povo de Deus, para a própria felicidade tanto do líder quanto dos liderados. À guisa de intertextualidade, lembremos do conselho do apóstolo Paulo a Timóteo, 1Tm 4.16: 

“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes.”


V) O CARÁTER DIVINO DA FUNÇÃO DE MAGISTRADO E SUA RESPONSABILIDADE DIANTE DA SUPREMA CORTE CELESTE

Versículo  6:  “Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.”

Os juízes são Elohim, deuses, mas não podem permitir-se o autogoverno. Há um Mais Alto, Elyon (עֶלְיוֹן), perante quem, como filhos e representantes, eles são  responsáveis. Não há nada de panteísmo neste versículo, algo como aquela idéia de somos deuses em miniatura ou coisa semelhante. A ênfase aqui é que, com base no contexto linguístico imediato, os juízes estão investidos com a capacidade jurídica de Deus e são seus representantes, por isso são chamados de Elohim (deuses). Eles continuam homens, porém, estão investidos pelo próprio Deus com a autoridade de julgar e fazer justiça de acordo com a Lei de Deus, refletindo assim o seu justo caráter perante o povo de Deus. 
Por certo, o melhor comentário deste versículo, além do que já dissemos, é João 10.34-36, que diz: “34 Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois deuses?   35 Se ele chamou deuses àqueles a quem foi dirigida a palavra de Deus, e a Escritura não pode falhar,   36 então, daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo, dizeis: Tu blasfemas; porque declarei: sou Filho de Deus?” (João 10.34-36 RA). Há aqui uma referência explícita a este versículo 6 do Salmo 82, que ora comentamos e não à Lei. Será que Jesus havia se equivocado ao dizer que aqueles a quem foi dirigida a palavra divina, investindo-os de autoridade, são chamados na Lei de deuses? Se não conhecêssemos o texto do AT em hebraico, jamais descobriríamos que a corte de julgamento e os juízes são chamados de Elohim no AT. Jesus tinha plena consciência disso, mas quem não sabe hebraico ou não possui um bom comentário, escrito por exegeta que domina essa língua e conhece as referências que citamos a princípio, poderia até supor que Jesus estivesse equivocado. Porém, de um modo indireto, a Lei é citada neste Salmo 82, pois os juízes são chamados de Elohim (אֱלֹהִ֔ים-deuses), em Ex 21.6 e em 22.7. É bom lembrar que, na maior parte das vezes, toda a contradição aparente que alguém ouse afirmar se encontra na Bíblia sempre deriva do fato de seu conhecimento ser limitado em relação à Escritura. Este fato que acabamos de citar poderia levar o indouto a dizer que Jesus fizera uma citação errônea. Seus interlocutores, contudo, que conheciam profundamente a Lei em hebraico, não o replicaram, pois sabiam do que ele estava falando.
 Cumpre-nos ressaltar que a expressão idiomática hebraica (בֶּן־הָאֱלֹהִים - Ben-haElohim), filho de Deus, significava, para os judeus, que Jesus estava repleto de todas as características do próprio Deus, revestindo sua natureza, poder e atributos. Seria uma reinvindicação de identidade essencial absoluta. Na concepção judaica, ser filho de é uma expressão idiomática que significa possuir todos os atributos daquilo ou daquele de quem alguém é filho. Daí percebermos porque aqueles homens o acusavam de blasfêmia.


VI) O JULGAMENTO DOS JUÍZES NA SUPREMA CORTE CELESTE

Versículo 7: Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.   

Eis aí a sentença sobre os juízes injustos.


VII) PRENÚNCIO PROFÉTICO DO JUÍZO DIVINO NA PERSPECTIVA DO "JÁ" E DO "AINDA NÃO"

Versículo 8: Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações. (Salmos 82.1-8 RA)

Aqui está expresso o anseio do poeta por justiça. Só Deus tem a prerrogativa de julgar o mundo com justiça. Seus representantes quase sempre deixam a desejar. Contudo, baseados em outro estágio mais avançado da revelação progressiva de Deus em sua Palavra, num período bem posterior a Asafe, nós hoje já podemos descansar na certeza de que Deus já tem estabelecido esse dia de julgamento pelo qual o poeta-profeta anelava.


VIII) CONCLUSÃO

Concluindo, vimos com foi importante o conhecimento do hebraico para interpretarmos corretamente este Salmo, escrito originalmente em hebraico. Que este pequeno artigo possa despertar em você o desejo de dar um primeiro passo para começar a trilhar esse caminho reservado aos eruditos: o conhecimento das línguas originais da Bíblia. Espero ter contribuído, de algum modo, para começar a demitificar a tão propagada impenetrabilidade nas línguas originais da Bíblia e demonstrar a insofismável importância do conhecimento delas como ferramenta na difícil tarefa da exegese bíblica. 


Prof. Fabiano Ferreira